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HAMNET E A ETERNA PERMANÊNCIA DO LUTO

Adaptação do romance homônimo de Maggie O’Farrell, que reimagina a vida do dramaturgo inglês, Hamnet é atravessado por uma atmosfera sobrenatural constante, na qual o luto se manifesta com altas doses de simbolismo, já perceptível nas primeiras sequências em que Agnes surge como figura enigmática, profundamente ligada à natureza.

Essa familiaridade com o ambiente se traduz visualmente na forma como a personagem é enquadrada no plano. Mesmo quando a floresta ocupa todo o nosso campo de visão, Agnes, em seu vestido vermelho-ferrugem, coexiste de forma harmoniosa com o ambiente, como se dele fizesse parte.

O figurino e a maquiagem são elementos centrais na construção psicológica dos personagens e acrescentam densidade dramática à narrativa. Alheios à passagem do tempo, Agnes e Will vestem permanentemente as mesmas roupas, com as mesmas cores, apenas mais desbotadas; não há alteração das feições para mostrar que os dois protagonistas envelheceram, mesmo que tenham passado dezesseis anos entre o início e o fim da história. Detalhes que representam simbolicamente a permanência do luto.

Concomitantemente, o ritmo é fundamental para estabelecer o tom poético de Hamnet. A narrativa está em constante avanço, mas respeita mais a lógica sensorial do que, necessariamente, a progressão da trama. É um filme silencioso, de longos planos e transições temporais bruscas, que nem sempre estabelecem uma continuidade muito clara com a cena anterior, mas que nos colocam na pele e no psicológico dos personagens.

Entre uma ambientação naturalista e um drama intimista, Hamnet articula com frequência dois regimes de encenação: a câmera afastada, estática ou de movimentos sutis, e a câmera próxima, que filma os personagens de maneira invasiva. Se, no primeiro caso, o sobrenatural emana da relação humano-natureza, no segundo ele nasce da intimidade. A câmera habita os personagens e, nesse ato de permanecer com eles, parece captar algo mais do que corpos.

A sobrenaturalidade, no segundo contexto, emerge nos pontos-chave da vida (nascimento e morte) e, como consequência natural desse estar no sofrimento, parece exigir um milagre. E assim ele surge: Judith revive após um parto turbulento; Hamnet absorve a peste da irmã e sofre em seu lugar.

Até os últimos trinta minutos, a transcendência em Hamnet nasce da fisicalidade, ou seja, de dentro para fora. Mesmo quando profundamente melodramático, jamais parece forçado, pois tudo emana, organicamente, dessas relações fílmicas.

O final, por outro lado, rompe com a construção tão efetiva até então. Nele, a transcendência passa a operar de fora para dentro: é uma história sobre Shakespeare, então precisamos ter a temática da redenção do dramaturgo. Mesmo que, até então, tenha sido uma narrativa sobre Will e Agnes. Dos pais enlutados para o mito oportunista do grande artista sofredor. Ao deslocar o centro dramático, de repente, tudo para de funcionar.

Mesmo assim, a sequência que encerra Hamnet não chega a ser tenebrosa, pois é bem orquestrada em termos de encenação. O problema é que o mero refinamento técnico não conversa com o todo dramático da primeira hora e meia, que lida de forma tão poética e empática com o sofrimento humano sem nos impor temáticas para além do filme.

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