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Valor Sentimental: Nem Todo Mundo é Bergman

Valor Sentimental é um filme que replica uma lógica de utilitarismo narrativo disfarçada de contemplação. Ao mesmo tempo em que pretende ser minimalista, trabalha com uma multiplicidade de escolhas formais que acabam se anulando. Por vezes, soa aleatório até demais.

Uma cena que me marcou negativamente é aquela em que Nora e Agnes visitam a casa de infância depois de um tempo e encontram objetos de “valor sentimental”. As irmãs adentram o ambiente e a montagem as capta por diversos ângulos, entre portas e corredores, alternando entre planos abertos e fechados de forma repentina. A edição fragmentada rompe a imersão e nos faz sentir o corte insistentemente.


Essa escolha formal não é necessariamente ruim. Bergman, uma clara influência para Trier, também nos tira de um lugar de segurança em muitos de seus filmes por meio de outros recursos formais. O desconforto pode funcionar como estratégia para nos distanciar do intimismo e observar aquelas relações com certo afastamento.

O problema é que, em diferentes momentos, há uma sobreposição de estilos. Ora escolhas mais convencionais, ora mais austeras, ora abertamente disruptivas. Além disso, os diferentes enquadramentos dessa cena específica parecem montados de maneira excessivamente aleatória, o que evidencia uma irregularidade formal que perpassa o filme como um todo.

Em termos de fotografia, a obra de Trier é inegavelmente muito bonita. Mas uma beleza estéril, apartada de qualquer relação com o drama apresentado no filme. Visualmente muito limpo, e suas imagens sempre operam dentro de um conforto pasteurizado.

É curioso, também, como uma obra que aposta no minimalismo precisa recorrer a recursos tão manipulativos para provocar emoção. Como citado anteriormente, Valor Sentimental evita qualquer tensão muito evidente e se sustenta em uma poesia meio cafona. Também refletindo no drama, há uma falta de confiança no peso dramático implícito: excesso de composições calculadas, expressões chorosas e trilhas melancólicas.

Ironicamente, esses comentários em voice-over e a narrativa metalinguística acaba evidenciando as fragilidades da obra principal. Em certo momento, a narradora diz que nada é mais belo do que o uso das sombras. No entanto, o que se vê é um uso apático e genérico desse recurso.

Apesar das boas atuações, Valor Sentimental perde força nas próprias escolhas estéticas. Quando se sustenta, é quase sempre pelas interpretações isoladas. Ainda assim, há indícios de que poderia alcançar uma potência dramática maior, algo que fica claro na sequência final do filme dentro do filme: um plano-sequência que, atento à arquitetura da casa e à movimentação dos personagens, constrói um drama preciso a partir de gestos e pequenos detalhes. Em seguida, um corte que adentra o cômodo reorganiza a cena e sugere, de maneira sutil, que a personagem mudou de ideia com esse simples movimento.

Há ainda um comentário metalinguístico implícito, com a câmera revelando o set em estúdio, ao contrário do que idealizava Gustav, como se lembrasse que o cinema não precisa existir em perfeitas condições. Em uma outra camada, também revela a superação do drama de Agnes, que atua no filme do pai: já não mais presa ao passado, às memórias e a casa.

Uma pena que essa força não se reflita no filme principal, que acaba soando autoindulgente e fetichista nas suas alusões a Bergman. A temática parece se colocar num lugar de superioridade. A personagem de Elle Fanning sintetiza este traço: a americana ingênua que não compreende esses filmes cheios de sutilezas. Apenas os escandinavos iluminados teriam essa sensibilidade… Na verdade é só muito chato mesmo.

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